Tishá b’Av

 

  por Uri Lam, do rabinato da CIP

 

O livro de Echá ou Lamentações, lido em Tishá b’Av, inicia com as palavras: “Como está solitária… a cidade outrora tão populosa! Iehudá… habita entre as nações e não encontra abrigo… o Eterno a afligiu pela infinidade de suas transgressões” (Echá 1:1-5) O Templo de Jerusalém foi destruído duas vezes: uma vez por ordem de Nabucodonosor, rei da Babilônia, em 586 a.e.c. — e novamente por Vespasiano, general do Império Romano, no ano 70 da era comum. Nas duas ocasiões o povo de Israel foi para o exílio. Segundo os nossos sábios, a Shechiná, a Presença Divina, também foi exilada.

Três semanas de tristeza

De acordo com o Talmud, os romanos destruíram as muralhas de Jerusalém no dia 17 de Tamuz, três semanas antes da tragédia que estava por vir no dia 9 de Av. Por três semanas lemos em cada Shabat uma passagem dos livros dos profetas com repreensões a um modo de vida mesquinho, de ódio gratuito, que poderia levar à destruição de Jerusalém. No terceiro Shabat a leitura é de Isaías – que viveu cerca de um século antes da destruição do Primeiro Templo. Este é o Shabat Chazon, o Shabat da Visão de Isaías: da destruição, mas também da redenção de Jerusalém e do povo judeu.

Tishá b’Av

Assim como em Iom Kipur, é proibido comer e beber, usar artefatos de couro, lavar-se, perfumar-se e ter relações sexuais no dia de Tishá b’Av. Estudam-se o livro de Lamentações e o livro de Jó, passagens dolorosas de Jeremias e do Talmud. Em algumas comunidades a Arca Sagrada é coberta de preto ou deixada aberta e vazia, sem os Sifrê Torá. A sinagoga fica a meia luz ou a luz de velas. Durante o serviço religioso é aberto espaço para sentar-se no chão ou em bancos baixos, em sinal de luto.

Kidush Levaná, a Consagração do Feminino

Após o por do sol e a quebra do jejum, algumas comunidades celebram um alegre Kidush Levaná, a Consagração da Lua, inspirado na tradição segundo a qual o Messias nascerá em Tishá b’Av e a lua passará a ter a mesma importância que o sol. Uma interpretação liberal considera que neste novo tempo as mulheres, identificadas com a lua, irão assumir plenamente a condição de igualdade com os homens na esfera religiosa. A independência do Estado de Israel, em 1948, e o crescimento do número de comunidades judaicas igualitárias reforça e estimula esta interpretação, que faz também de Tishá b’Av um dia de esperança e otimismo num futuro melhor, de mais amor ao próximo.

Sete Semanas de Consolação

Depois de Tishá b’Av vem o Shabat Nachamu, o Shabat da Consolação, quando lemos na Haftará outra passagem de Isaías (40:1-26): “Consola, consola o meu povo!, proclama o seu Deus… terminou o tempo fixado… pois já recebeu em dobro da mão do Eterno por todos os seus pecados” (40:1-2). É o primeiro de sete Shabatot com leituras dos profetas que falam da redenção do povo judeu, o retorno para Israel e a vinda de um tempo de paz e justiça. Estas semanas nos levam da destruição e luto em Tishá b’Av ao nascimento de um novo ano, em Rosh Hashaná, quando se fecha um ciclo e reinicia-se outro, pleno de novas esperanças.

Um Novo Tempo

Tishá b’Av foi o dia que se tornou o marco do fim de um tempo, com a destruição do Templo; e o início de um novo tempo, quando os debates, histórias, leis e tradições rabínicas foram reunidos no Talmud, estabelecendo novas bases para a vida judaica. Os rabinos estabeleceram que, junto com a Torá escrita, Deus entregou a Moisés a tradição oral da Torá, transmitida de geração em geração.

Tishá b’Av hoje

Depois de quase 2 mil anos da destruição do Segundo Templo, vivemos um novo momento. Nos últimos 200 anos, dadas as novas circunstâncias políticas, econômicas, sociais e de desenvolvimento mundiais, foram criadas novas maneiras de se viver judaicamente – e com estas, novas maneiras de se relacionar com a tradição milenar. Um maior acesso ao pensamento judaico dos séculos anteriores e a diversidade da vida judaica gerada pelo surgimento de grandes pensadores e rabinos, cientistas, artistas e lideranças entremeou-se com a tragédia do Holocausto, o nascimento do Estado de Israel e os desafios de vivermos em um mundo pleno de oportunidades atraentes e acessíveis ao judeu moderno.

Se no passado Tishá b’Av marcou a destruição do Templo e a iminente extinção da vida judaica em Israel, hoje devemos pensar sobre como fazer para que Tishá b’Av seja revertido em um marco da renovação judaica, com as devidas correções de rumo para a construção de comunidades vibrantes, que incluam com amor cada judeu que recorrer a elas.

É chegada a hora de buscar novamente na Torá novos significados que façam sentido ao judaísmo dos nossos tempos, assim como fizeram os rabinos do Talmud no tempo deles, para reconstruir uma vida judaica que nos mantenha identificados e pertencentes ao Povo de Israel.

Em Tishá b’Av lemos no livro de Lamentações: “Renove os nossos dias como nos tempos antigos”. A leitura tradicional fala do desejo de voltar a se viver como no passado, mas é possível fazer uma outra leitura. Que nós possamos renovar a vida judaica em nossos dias, assim como os rabinos do Talmud renovaram o modo de vida judaico depois da destruição do Templo, há quase dois mil anos.