Grandes Festas

‘’Deus é negra…’’ foi o começo de uma prédica e de uma nota escrita sobre parashiot neste ano. Todos sorriram ao ouvir a expressão, mas nem sempre com certeza da razão do sorriso. Sorrimos por quê? Porque é absurdo? Tão absurdo como o Deus da barba branca que faz milagre? Ou menos? Ninguém pode imaginar Deus mulher e negra, e todo mundo, crentes e não crentes, criticam a imagem do velho branco, mas o fato de que a mulher negra nos pareça mais extremo já “entrega” que sim acreditamos inconscientemente em algo assim. Sabemos que o céu é só espaço, que a nuvem é só água em forma de gás, mas olhamos para cima e indicamos para cima para falar em Deus, especialmente quando pedimos, tememos ou agradecemos…
 
Amigos, revisitar nossas ideias, é fundamental para sermos nós mesmos e para sermos livres. Para sermos livres de nós mesmos e para sermos livres para sermos nós mesmos, os que deveríamos ser, os que podemos ser, os que queremos ser. Pensar e acreditar de verdade o que dizemos pensar e acreditar. Verificar se realmente nos preocupa o que dizemos que preocupa, se realmente importa, se realmente valorizamos o que dizemos que valorizamos. Não se acomodar é a chave de estar vivo. O desconforto, não de um sofá ou do frio ou do calor e sim de você mesmo, de suas ideias e emoções, da falta delas, liberta. Especialmente aquelas que atribuímos a Deus. Já explicamos que a fé não é só medo infantil, mas pode ser a coragem diante do inexoravelmente desconhecido: “não sei, sei que não saberei, e escolho acreditar que há além, que há sentido”.
 
O que atribuímos ao Deus, no qual acreditamos ou no qual não acreditamos, diz muito a respeito de quem somos, segundo o teólogo Rabino Mordechay Kaplan.
Em Rosh haShaná explicamos que Yuval Noach Harari, o autor do best seller que revoluciona o conceito de best seller com seu livro de historia, sem argumentos, que não sai do topo dos mais vendidos em dezenas de países e línguas, que se tornou guru até de políticos, recomendado por Obama, este historiador-prodígio, depois de cutucá-lo tudo chamando de ficções inventadas ou religião ao dinheiro, ao poder, às leis, aos países, às culturas, à estética, acabou dizendo que dessas atribuições depende tudo…do modo como significamos e atribuímos o que existe, o que acontece, especialemnte a Deus, depende como vivimos e como somos.
 
Então, quem é esse Deus no qual acreditamos ou não, e que diz a respeito de nós?! Do que tememos, do que queremos, do que valorizamos, do que fazemos e do que deixamos de fazer? Se nosso Deus for o Deus pagão dos mitos, das novelas, e das guerras entre deuses, então o mundo é uma arbitrariedade, uma montanha russa. Salve-se como puder, pois não há critérios nem princípios para nada, apenas negociações, suborno e sorte.
Se nosso Deus for o Deus dos oráculos, do fetichismo, então há regras sim e elas são tão rígidas que os especialistas, sejam gurus, mágicos, rabinos milagrosos ou padres com poderes, tem a capacidade de explicar com certeza absoluta por que tal negocio não deu certo, e o que fazer exatamente para que o próximo sim, para casar, para sarar. Como as regras são tão exatas e rígidas, eles podem até manipulá-las e forçar o próprio Deus: subornar Deus, compensar, e até forçar fisicamente através de rituais mágicos…
 
Se for o Deus clássico, tudo está aberto mas não caoticamente, existe relacionamento, existem princípios e valores comuns em virtude dos quais pode-se pedir, suplicar, negociar, brigar. O Deus pode ser até personalizado como no shtetl de tebbie que gritava: “Tate!!!, não me faça isso, por que fez aquilo, oi vavoi, escolha outro…”
Esse mesmo Deus pode ser mais sofisticado , sério e adulto, e como no caso de Rosenzweig se manifestar no amor, na compaixão. Na qualidade de se importar com tudo e todos e assim dar importância e valor a cada detalhe de minha vida.
 
Esse Deus deriva no Deus da teshúva, de Iom Kipur, do ticun. Nesse esquema o mais importante é sempre descobrir nossa parte e realizá-lá. Fazer nossa parte é a chave. Por que o demais virá em resposta. Porque é o único que podemos fazer. Porque é o único que conta. Tudo é prova e oportunidade para ver o que fazemos, como reagimos e transformamos, que diferença nós fazemos em nosso lugar. Tudo. Dinheiro, amizades, conhecimento, emoções. Não tem valor em si. Ter ou carecer, mais ou menos, são só oportunidades para fazer diferenças e ser diferentes. Tudo é prova. Essa é a contribuição da idéia de Deus. Viver com a sensação de que estamos sendo observados no uso de nossas possibilidades. Mais do que para ganhar ou pedir ajuda
 
Existe o Deus Psicanalista, consciência, valores, relacionamentos (Heschel, Kaplan, Levinas), ele não faz, é uma instância, um horizonte, um modelo, uma demanda. É o que impulsa a dar sentido, a buscar além e sair da mediocridade.
Arthur Green dá mais um passo: Deus definitvamente não é alguém. Não é personalizado. É a mágica que podemos ver em tudo. A religiosidade está no olhar, em como olhamos e em ver essa mágica. Acolhe-lá como tal. Atribuir a tudo uma mágica. Uma divindade. Mas não mítica e primitiva para temer, ou manipular, pedir ou se paralisar. Refiro- me à aquela do homem moderno, pós-científico, que não chama o sol de Deus numa narrativa mítica se não que acolhe o calor, o laranja da saída e do por do sol, como mágica pela beleza. A flor que sabe seguir o sol e elaborar seu alimento, o animal que dá a luz sozinho, que nasce e já sabe andar. E também cada pessoa. Perguntaremos: e o mal, também é divino? e o feio e o injusto, os inimigos? Dirá: olhar para eles como a dificuldade, o desafio, a fraqueza, sim, no divino, que pode ser cruel, perigosa, devastadora, indiferente mas ao olhá-la assim teremos algo a fazer com ela e com nós.
 
Harari disse que tudo depende de como significamos. Esse é o Deus, e daí deriva o tipo de vida que temos e o tipo de pessoa que somos. Se tudo é arbitrário: viveremos na Submissão passiva ou na negociação esperta. Se tudo é prova então a vida consiste na procura constante pelo aprimoramento, o constante tikun, teshuva, projetos, visões, desejos. Fazer acontecer. Se tudo é relacionamento, então a chave está em mudar dentro para que mude fora. Se tudo é Deus ou tem um lado-potencial divino então a chave está no modo de olhar e no que conseguimos ver. Em tudo e em todos. O que fazemos com nossa visão ideal de tudo. É mais importante o que realizamos de nossos ideais e aspirações, do que deles pedimos fora de nos. Se tudo é Deus pedir de Deus é pedir de nós mesmos, de nosso lado divino e do divino de todos os demais.
 
“What you are is God´s gift to you, what you make of yourself is your gift to God’’ dizia um quadro na sala do primeiro rabino com o qual me relacionei quando era adolescente. Hoje entendo o ditado diferente. Não se trata de entregar a alguém, a um Deus personalizado, um presente de mim, trata-se de descobrir o divino em tudo e assim ampliá-lo transformando-o em presente, ampliar a divindade de tudo é o sentido e o que dá qualidade a nós e a tudo que vivemos.
 
Gostaria de sugerir para este Iom Kipur que ao invés de virmos à sinagoga para pedir ou para esperar, agradecer ou demandar, falemos conosco desta vez. Uma conversa franca e sincera, buscando nosso lado divino, e vendo o que podemos pedir de nós, o que podemos agradecer de nós, o que podemos mudar e dar a nós de nós como nosso presente, nossa contribuição ao divino de tudo.
 
Na reza talmúdica do próprio Deus, ele se pede a si próprio para ser mais compassivo conosco. Que também nós possamos buscar o melhor de nós para oferecer a nós, aos que estão à volta e à vida que deixaremos aos que venham após.
Logo mais diremos izcor, que possamos também lembrar do divino de nossos entes queridos, o que nos entregaram, as pendências e as inspirações. À luz da divindade deles possamos focar as nossas e deixá-las como sagrada inspiração de sentido aos que virão um dia aqui para dizer izcor por nós.
 
Todos convidados a ficar. Para se inspirar num avô, num tio, num amigo, para homenagear pessoas conhecidas ou não que não tiveram filhos: vítimas da shoá quando crianças, soldados e vitimas de atentados terroristas em Israel ou em qualquer outro lugar do mundo, todos estão convidados a estender a dimensão das próprias vidas através dos que já não estão no mundo físico. Pais vivos, não se ofendam, é uma fonte de orgulho que nossos filhos nos presenteiem e se presenteiem com essa experiência espiritual de extensão solidária.

Rabino Dr. Ruben Sternschein

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Mensagem de Rosh haShaná

Quando nossos antepassados “primitivos” abandonaram a caça e a colheita para se tornarem agricultores e fazendeiros pensaram que tinham conseguido um grande avanço. Não estariam mais a mercê do que encontrariam. Não teriam mais que sair a procurar. Teriam tudo a mão.
Só que isso os fez carregar água, arrancar ervas selvagens, e proteger os campos de bichos, pestes, água e sol de mais e até de outros humanos de outras espécies incluindo aprender a lutar e a matar dia e noite!
 
Avançamos?!, Não sabemos, mas com certeza não fomos nem mais felizes, nem mais sãos, nem mais justos, nem melhores pessoas. Disse Yuval Noach Harari no livro Sapiens, que está mudando o mundo – ao menos a característica de um Best seller: dezenas de línguas e países, sem violência, sem sexo, sem argumento, sem autoajuda.
 
E por que fizemos isso? Porquê podíamos e porquê não podíamos. Porquê podíamos desenvolver a agricultura e porquê não tínhamos como saber que tudo isso viria com ela. Não tínhamos visão tão estratégica nem valores para avaliar o significado de semelhantes mudanças se eram avanços ou não, melhoras ou não e em que aspectos….
Na entrevista a Bial, Harari esclarece: tudo depende de como significamos o que vemos no que podemos….
 
Idem com a tecnologia, com a clonagem, com a economia das empresas do dinheiro, e com a política do poder e a dinâmica do marketing: quem governa, quem decide, o que decide, e principalmente em função de quais critérios é a pergunta mais importante. Mais do que ”o que posso?”.
 
E quando dizemos quem governa não nos referimos apenas a Estados se não a comunidades, a famílias e ao próprio indivíduo. Do mesmo modo que quando dizemos quem julga, quem avalia, não nos referimos a juízes profissionais pois você é quem se governa. Você é quem julga. Sua personalidade e sua vida. Inclusive quando decide não governar e deixar que outros a governarnem. Sejam pessoas, publicidades, culturas, costumes, uns conhecimentos ou outros, ignorâncias, preconceitos, atividades ou preguiças. De pensamento, de emoção. De verificação. É você quem decidiu. Sempre você. Só você. Porque só você pode decidir diferente também.
 
Tudo é o modo, mas não no sentido de rápido ou devagar, num sofá melhor ou pior, com pipoca ou whisky na mão (essa é a armadilha do conforto, das técnicas, do celular mais rápido, da clonagem que não explica o que é produzir humanos, replicar idênticos, a relação entre o primeiro e os outros), porque a qualidade de vida, já dissemos no passado, não depende apenas do filme que podemos assistir, da peça ou concerto, da comida que comemos, da roupa que vestimos, das viagens que fazemos. A maioria de nós tem a sorte de ter conseguido neutralizar essas variáveis, tudo isso é bastante acessível, e assim descobrimos que não são essas variáveis as que mudam ou caracterizam a vida.
 
Senão, o que acontece dentro de nós, o que nos dizemos a respeito, como e o que ecoa, vibra, associa, transforma, como somos depois de tal filme, viagem, quando vestimos isso ou vestimos aquilo, o que fazemos em função do visto, e a que objetivo ou valor interior atende e como.
 
As ferramentas que temos, o repertório para receber, interpretar, associar, valorizar e transformar são a chave….
O judaísmo, a comunidade, o ticun olam são treinos que podem fornecer as melhores ferramentas os melhores repertórios para interpretar e significar o que podemos, o que vemos e o que vivemos. Desenvolver a afetividade, a meditação, o estudo. Porque o que determinamos como ter sentido, fazer sentido, ter valor, é o que determina tudo.
 
Conto do vendedor do סם חיים(droga da vida) que todos se perguntavam quem fabricaria essa droga, quem a venderia, quem a pediria, quem poderia comprá-lá. O rabino a pede, insiste do alto, o vendedor aceita entrega o salmo 34 marcado na frase “mi haish”):
O Que significa escolher a vida e querer viver mais? Qual vida? Porquê e para que estamos pedindo neste Rosh haShaná, dedicada a quê, repleta de quê, sem o quê?
Qual é esse mal que seria bom evitar de nossa língua e da expressão do pensamento?
Qual é o mal que devemos evitar e o bem que devemos procurar, na ética, na cidadania, no trabalho, com o mendigo, na família, na personalidade?
 
O que proporciona sensação de plenitude e qual o caminho para persegui-lá e alcançá-la…
Amigos, este foi só um exemplo. O judaísmo está repleto de trechos como esse, que por séculos foram estudados de diversos modos, especialmente como espelho para permitir às pessoas dialogarem com si próprias e se aprimorarem…
 
A CIP está voltando a isto. Ao essencial além dos rituais básicos e as confraternizações divertidas. Voltando e desenvolvendo seu ser o lugar do aprimoramento do ser.
Seja conosco. Estude aqui, conheça, revisite idéias e ideais, adquira novas, novos desafios, novas ferramentas, participe de mais ações. Assim seu próximo ano aumentará a qualidade de vida, de verdade, porque aumentará a sua qualidade, na sua vida. Em cada circunstância, em cada comida, em cada filme, em cada conversa, em cada silêncio, em cada viagem, em cada atividade, em cada descanso.
 
Não podemos acrescentar tempo à nossa vida, mas podemos acrescentar vida a nosso tempo.
Que possamos aproveitar a oportunidade que nos brinda o judaísmo da CIP de sermos nós mesmos mais e melhor.
 
 
Shaná tová!
Rabino Dr. Ruben Sternschein