Nassó

A parashá da semana é conhecida por incluir uma grande variedade de temas: a organização do acampamento por lideranças tribais, os limites dos poderes e privilégios dos sacerdotes, os procedimentos diante de suspeitas de infidelidade conjugal, os limites e regulamentos para práticas e votos religiosos extremos fora da lei, a bênção dos cohanim.
 

O rabino e filosofo medieval Guershonides sugeriu como elo entre todos eles a busca da paz. Na sociedade, através da organização das hierarquias e dos limites dos privilégios, na família, dentro da personalidade do indivíduo que sente precisar de mais leis religiosas do que as existentes.

 

A bênção dos cohanim, a mais antiga de nossa tradição, também termina invocando a paz. Todavia, ela começa com uma frase muito famosa e básica, se bem que enigmática: “Deus te abençoe e te proteja”.

 

As perguntas são inevitáveis. Isso não seria uma redundância? Uma bênção não inclui proteção? É necessária outra proteção após ou além ou por causa da bênção? A bênção poderia ser uma ameaça?

 

Ao longo dos séculos foram sugeridas sabias respostas:

1) a bênção não é infinita, pode acabar; e a proteção poderia pedir ajuda para esse momento;

2) como a continuidade da bênção não está garantida nela, a proteção se refere ao cuidado e à manutenção da própria bênção; a que se mantenha;

3) a proteção seria a manutenção dos méritos que nos fizeram dignos da bênção; o continuar merecendo;

4) a bênção pode criar arrogância ou segurança exacerbada, portanto falta de empenho, falta de humildade, falta de gratidão e valorização; a proteção implicaria a prestar atenção a esses vícios que podem vir junto com o sucesso;

5) a bênção, como todo êxito, pode gerar invejas, brigas e afastamentos dos entornos conhecidos antes dela; a proteção dita se referiria a eles;

6) o sucesso pode acontecer em detrimento de outros, por causa do fracasso de outros; a proteção manteria a sensibilidade para com quem pagou um preço pelo nosso sucesso e que, em todo caso, continuemos atentos a quem precisaria da mesma bênção; nos proteger de nossa possível cegueira embriagada de êxito.

 

Que tenhamos a virtude de merecer a bênção do sucesso não só ao chegar, mas também após tê-lo atingido. Que saibamos administrar emocionalmente, psicologicamente e socialmente nossos êxitos.

 

Shabat Shalom.
Rabino Ruben Sternschein