Lech Lechá

A parashá Lech Lechá é a primeira na qual aparecem os nossos patriarcas. Avram recebe a mensagem de sair de seu lugar para ir em direção a uma terra desconhecida. Depois de várias aventuras e uma idade avançada, recebe a famosa promessa de que sua descendência será tão numerosa quanto as estrelas do céu.
 
Sara (ainda chamada Sarai) percebe que a oportunidade de ser a mãe da descendência tão esperada de Avraham (ainda chamado Avram) se terminou por completo. Essa é a primeira vez que ouvimos a voz de Sarai. Até então ela tinha seguido os passos de seu marido sem questionar, mesmo quando entrava em situações pouco confortáveis.
 
A primeira decisão da vida da matriarca, segundo registrado na Torá, é oferecer sua serva Hagar para que ele tenha um filho através dela. Avram “escuta a voz de Sarai”, que demanda algo pela primeira vez, e obedece. É a própria Sarai que “entrega” Hagar, que engravida.
 
A partir desse episódio os problemas aparecem. Sarai vê seu lugar como matriarca começar a se desmoronar. Ela não teve nenhuma influência ou participação em qualquer coisa que seu marido Avram fez ou pactuou com Deus. E agora nem a descendência virá dela mesma.
 
Sarai fica fora de si e culpa Avram por Hagar tê-la menosprezado.
 
Lembremos que a ideia de ter uma descendência através de Hagar foi da própria Sara. Ela mesma foi quem a levou. Uma coisa é o que acontece no plano das ideias e outra quando se concretizam na vida real.
 
A vontade da Sara de contribuir para a realização da promessa, levou-a decidir algo do qual se arrependeu depois. Mas seu arrependimento não veio logo em seguida à realização de seu desejo pelo marido com outra mulher, o arrependimento vem quando ela vê que algo concreto, um filho, vai sair dessa relação.
 
Ainda que tenha sido ideia da própria Sara, talvez ela não tenha imaginado qual o impacto que isso teria nessa pessoa submissa que tinha sido até esse momento. Porque o que os olhos não vêm, o coração não sente, diz o ditado. Ver impacta mais do que saber. Ver materializa.
 
Materializa que seu marido esteve com outra mulher. Materializa que ela não seria a progenitora da grande nação da qual seu marido seria o pai. Materializa sua grande falha. E por isso a gravidez de Hagar é o que transforma Sara. De uma mulher passiva que aceitava tudo em uma mulher agressiva, que culpa Avram e pune Hagar.
 
Talvez Sara não tivesse tido outra opção de ação. Talvez tenha sido movida pelo amor, pela fé. E o choque de realidade a levou para outra direção.
 
Shabat Shalom
Rabina Fernanda Tomchinsky-Galanternik