Tishá b’Av

Um dia de tristeza

A partir do dia em que se destruiu o Templo, cessou o riso perante Deus
Talmud, Avodá Zará, 3b

Tishá b’Av, o nono dia do mês de Av, é uma das datas mais tristes do ano para o povo judeu. É um dia de luto e jejum, pois recordamos a destruição do Primeiro Templo (queimado pelos babilônios, em 586 A.C.) e do Segundo Templo de Jerusalém (arrasado pelos romanos, em 70 D.C.) – então centros da vida religiosa do povo hebreu. Os dois eventos deram início a longos e penosos exílios.
A destruição dos dois Templos, porém, não é a única tragédia associada a Tishá b’Av. Na mesma data, no ano 135 da nossa era, a última fortaleza judaica a resistir aos romanos durante a revolta de Bar Kochbá, em Betar, foi vencida, selando mais um destino de sofrimento para o judeu. No mesmo dia, no ano seguinte, o imperador Adriano destruiu Jerusalém, estabelecendo no lugar uma nova cidade romana, Aelia Capitolina.
O imperador impôs uma série de restrições à prática do judaísmo, proibindo inclusive a circuncisão e limitando a um dia as visitas a Jerusalém (justamente em Tishá b’Av), e somente com o pagamento de pesados tributos.
Já na Idade Média européia, outro acontecimento trágico marcou a data: o monarca inglês Eduardo I assinou um edital banindo os judeus do país, em 1290. O decreto só seria revogado na metade do século XVII. Em 1492, foi a vez dos judeus da Espanha serem expulsos, outra vez em Tishá b’Av. A expulsão veio acompanhada da conversão forçada ao cristianismo. Muitos resistiram e mantiveram costumes judaicos, secretamente. Estes judeus ficaram conhecidos como bnei anussim, marranos ou criptojudeus.
Esse conjunto de eventos compõe um período de três semanas de luto, que se inicia com o jejum de 17 de Tamuz, dia em que os soldados babilônicos romperam as muralhas de Jerusalém. Durante essas três semanas de luto são proibidas as celebrações de casamentos ou qualquer outro tipo de festa.

Os Templos de Jerusalém (Batei Hamicdash) 
O Primeiro Beit Hamicdash foi construído no século IX A.C. pelo rei Salomão para servir como a Casa de Deus. Ele não poderia ser erguido com instrumentos de ferro, uma vez que esse metal era relacionado à guerra. Então, foi edificado com pedras, ao longo de sete anos, e se transformou em uma das grandes construções da Antigüidade Oriental até a invasão e o exílio babilônico.
Setenta anos mais tarde, Herodes construiu o Segundo Beit Hamicdash. Menos suntuoso que o primeiro, foi destruído pelos invasores romanos no ano 70 D.C., em uma tentativa de latinizar a região.
Há muitas lendas sobre os milagres que aconteciam nos dois Templos. Conta-se que a fumaça produzida pelos animais sacrificados em louvor a Deus nunca se dissipava. Formava uma densa coluna até o céu, simbolizando a ligação entre o povo que fazia as oferendas e Deus, Quem as recebia.
Entre os grandes símbolos dos dois Templos estavam a Menorá e o Aron Hakodesh, a Arca Sagrada. A Menorá, segundo a tradição, tinha sete braços e era toda feita de ouro. Suas chamas eram acesas de modo que sempre ficassem apontadas para o centro. Não se sabe do seu destino. Mas, nos monumentos erguidos em Roma em homenagem à conquista, aparece a imagem da Menorá.
O Aron Hakodesh, o mais sagrado dos objetos do Templo, era feito de madeira e coberto por ouro. Dentro, estavam as Tábuas da Lei que Moisés recebeu de Deus e o Sêfer Torá, a principal obra do judaísmo. A Arca ficava no Kodesh Hakodashim (o mais sagrado dos locais do Templo), em um ambiente onde apenas uma pessoa, o Cohen Gadol, o Sumo Sacerdote, podia acessar.

Tradição 
Em Tishá b’Av realiza-se um jejum semelhante ao de Iom Kipur. Ele tem início ao pôr-do-sol do dia anterior e estende-se até o anoitecer do dia seguinte. Na refeição que o antecede, é costume comer lentilhas e ovos duros, alimentos que são associados ao luto.
Mas a restrição alimentar vai além do período de jejum. Mesmo após o término do jejum, não se come carne ou toma vinho até a metade do dia seguinte. Isso porque, segundo a tradição, o fogo consumiu o Templo nos dias 9 e 10 de Av.
Nesses dias também é proibido calçar sapatos de couro, em sinal de contrição. Os homens deixam de fazer a barba e as mulheres, de usar maquiagem. O estudo da Torá é restrito. Por ser considerada uma atividade alegre, sua leitura não é permitida. Apenas alguns trechos do Talmud, que tratam da destruição de Jerusalém, podem ser lidos.
Na sinagoga, lê-se a Meguilat Echá (Livro das Lamentações). Algumas congregações, inclusive, para ressaltar o luto, cobrem o Aron Hakodesh (Arca Sagrada), onde se guardam os Sifrê Torá (os rolos da Torá), com um pano negro. As luzes da sinagoga são substituídas por velas. As pessoas sentam-se no chão, em bancos baixos ou almofadas, outra tradição do luto no judaísmo.