Pessach

Da escravidão para a liberdade

Conservareis a memória daquele dia, celebrando-o com uma festa em honra do Eterno, de geração em geração, como uma instituição perpétua… porque foi naquele dia que vos tirei do Egito
Êxodo 12:14, 17

Pessach (em português, “passagem”) celebra a libertação dos filhos de Israel depois de mais de dois séculos de escravidão no Egito, no segundo milênio antes de Cristo. A ocasião, também chamada de Chag Hacherut (Festa da Liberdade), relembra essa passagem, os anos de sofrimento em terras estrangeiras e também as dez pragas que Deus enviou para tirar seu povo do Egito. Celebrada em 14 de Nissan e nos sete dias seguintes, Pessach marca o renascimento dos judeus como um povo livre.
Conta a Torá (Pentateuco) que um faraó egípcio resolveu escravizar todos os hebreus que viviam no Egito. Para tentar fazer com que Moisés, seu filho recém-nascido, sobrevivesse, Yochéved o escondeu em um cesto, posto a vagar nas águas do rio Nilo, perto de onde uma filha do faraó se banhava. A irmã de Moshé, Miriam, o acompanhou pelas águas de Nilo e viu, escondida, que a moça havia resgatado o bebê e o levado para a corte, onde o criou como príncipe.
Certo dia, ao se perder no bairro dos escravos, Moisés encontrou Yochéved, que lhe contou a sua origem. Mais tarde, ao ver um guarda egípcio chicoteando um escravo hebreu, Moisés se rebelou, matou o homem, abandonou a corte e fugiu para o deserto. Foi durante os dias de solidão no deserto que Deus se dirigiu a ele e lhe deu a missão de libertar os hebreus, guiando-os à Terra Prometida de Israel.
Moisés, então, alertou o faraó (ao lado de quem fora criado, como irmão) para que, em nome de Deus, libertasse o povo hebreu. O pedido foi recusado e, como castigo, Deus enviou dez terríveis pragas ao Egito: águas transformadas em sangue, invasão de rãs, piolhos, animais ferozes, animais atacados por pragas, sarna para os homens, tempestade de granizo, invasão de gafanhotos, trevas cobrindo o país e – a mais terrível – a morte dos primogênitos egípcios.
Antes de cada praga divina, Moisés tentava convencer o faraó a libertar seu povo. Só depois da última, porém, o monarca decidiu escutar.
A morte dos primogênitos aconteceria pela ação de um anjo exterminador que passaria (daí o nome Pessach) sobre as casas. Para que os judeus não fossem atingidos, Deus orientou Moisés a marcar o umbral de suas casas com um sinal feito com sangue de cordeiro. Ao ver a marca, o anjo da morte desviava da casa. Essa foi a origem da tradição da mezuzá, presente no umbral direito das casas judaicas.
Ao ver a tragédia, que incluiu a morte de seu próprio filho, o faraó resolveu obedecer ao Deus de Moisés e permitiu que os hebreus saíssem do Egito. Depois, porém, traiu sua palavra, mandando o exército atrás do povo que partia para a liberdade. Deus, por meio de Moisés, fez com que as águas do Mar Vermelho se abrissem, para que os hebreus pudessem passar. A travessia foi feita e as águas uniram-se novamente, afogando todo o exército do faraó. Era o fim da escravidão do povo judeu, que pôde seguir seu caminho, livre, até a Terra Prometida.
Na fuga apressada, os judeus não puderam preocupar-se com a alimentação. A massa dos pães não teve tempo de crescer e foi levada assim mesmo. É desse alimento que nasceu outro nome da festa, o Chag Hamatzot, Festa dos Pães Ázimos, sem fermentação.

Chamêtz e Matzá 
“Porque qualquer pessoa que comer alimento levedado, desde o primeiro até o sétimo dia, aquela alma será cortada de Israel” (Êxodo 12:15).
Esse preceito foi transmitido por Moisés a todo o povo hebreu à saída do Egito. Durante a celebração de Pessach, mantemos a tradição. A partir das 9h30 da primeira manhã, alimentos que contenham trigo, cevada, centeio, aveia e outros cereais, sujeitos à fermentação quando entram em contato com água, tornam-se chamêtz e devem ser evitados ao longo da comemoração. Pães, bolos, massas, biscoitos e outros pratos à base de farinha não fazem parte da mesa.
Carnes, aves e peixes – abatidos de acordo com as leis judaicas – frutas, verduras, legumes e laticínios podem ser normalmente consumidos, além da matzá, bolacha não fermentada feita de farinha de trigo e água. O preparo não pode passar de 18 minutos, sob o risco de iniciar a fermentação.

O jejum dos primogênitos 
O dia que antecede Pessach é marcado pelo jejum dos primogênitos, em gratidão por Deus tê-los poupado da morte, na décima praga. O jejum começa ao alvorecer e pode ser quebrado assim que a pessoa participar de uma brachá (bênção) na sinagoga. Se a festa cair em um sábado, o jejum deve ser realizado na quinta-feira anterior.
Tão importante quanto o dia da festa é o ritual que envolve a sua preparação. Chamado de Bedicat Chamêtz, – a busca pelo alimento fermentado, em português – envolve a “varredura” e eliminação de qualquer tipo de alimento fermentado. A limpeza vai além da comida e passa pelos utensílios de cozinha. Muitas famílias, inclusive, guardam jogos de pratos, panelas e talheres especiais, para serem utilizados exclusivamente em Pessach. O misticismo judaico compara o processo de fermentação às imperfeições morais do ser humano. Assim como a massa se enche de ar e cresce, o homem se preenche de vaidade vazia. A eliminação de todos os produtos fermentados em Pessach seria uma forma de purificar, então, a alma e o coração humano.
O chamêtz encontrado durante a busca deve ser embrulhado e, depois, queimado. Até a manhã de Pessach, nenhum “alimento proibido” pode ser encontrado na casa. Só depois dessa limpeza é que tudo está pronto para o momento mais festivo de Pessach: o Seder (a Ordem).

O Seder 
É o ponto alto da festa de Pessach. Família, amigos e convidados se reúnem ao redor da mesa para relembrar toda a história de escravidão e saída do Egito, contada pela Hagadá Shel Pessach (Relato de Pessach). Na hagadá também constam todos os detalhes para a condução do Seder, como o ritual religioso e as músicas típicas.
Na mesa do Seder, não podem faltar:
Matzá – recorda a pressa com que nossos antepassados tiveram que sair do Egito. É costume colocar três matzot à mesa, que simbolizam as linhagens Cohen, Levi e Israel do povo judeu.
Vinho – símbolo de alegria. Durante o Seder devem-se tomar quatro copos, que representam as quatro expressões de redenção mencionadas na Torá: “Eu vos tirarei (Hotsêti) de sob as cargas dos egípcios”; “e vos salvarei (Hitsálti) do seu serviço”; “e vos redimirei (Gaálti) com braço estendido e grandes juízos”; “e vos tomarei (Lacáchti) por Meu povo, e serei para vós Deus…” (Êxodo 6:6-7).
A Keará shel Pessach (Bandeja de Pessach), que deve conter os seguintes itens:
• Ovo – símbolo de luto, recorda a destruição dos Templos de Jerusalém. Seu formato simboliza também o fato de a vida “dar voltas”, ou seja, que da escravidão passamos a ser livres.
• Osso de perna de boi ou frango (zeroá) – assim como o ovo, recorda a destruição do Templo. O osso deve ser preferencialmente de perna, para simbolizar também a saída dos judeus do Egito.
• Erva amarga (maror) – para lembrar a amargura sofrida pelo povo judeu durante a escravidão. Geralmente usa-se a raiz-forte.
• Carpás – ervas, indicando a primavera, a frutificação e a renovação da esperança no futuro.
• Charosset – simboliza a argamassa usada pelos escravos judeus na construção do Egito. É feita com maçãs raladas, nozes moídas, vinho tinto e canela.
• Água salgada – representa todas as lágrimas do povo hebreu ao longo da história.