Iom Hashoá

Esquecer, jamais

…não relembrar o Holocausto significa assassinar as vítimas pela segunda vez; tornar-se cúmplice do inimigo. 
Por outro lado, relembrar significa sentir compaixão pelas vítimas de todas as perseguições.
Elie Wiesel, prêmio Nobel da Paz/1986

Um dia de muita tristeza para os judeus de todo o mundo. Assim é marcado o Iom Hashoá v’Hagvurá, o dia da recordação dos heróis e mártires do Holocausto, um dos mais sombrios episódios da história da humanidade, quando seis milhões de judeus – entre muitas outras vítimas – foram exterminados pelos nazistas, durante a Segunda Guerra Mundial.
O Iom Hashoá (Dia da Catástrofe, em hebraico), é celebrado em 27 de Nissan, data oficializada pelo então primeiro-ministro israelense, David Ben Gurion, em 1959. O objetivo é não apenas manter viva a memória das vítimas do nazismo, como também fazer o Holocausto chegar ao conhecimento do mundo e combater todas as atrocidades cometidas em nome do anti-semitismo.

Período de mortes e perseguição 
A palavra Holocausto tem origem grega e significa sacrifício. Tem sido questionada por historiadores, lembrando que, durante a guerra, não houve sacrifício e, sim o assassinato em massa.
Adolf Hitler e seu Partido Nacional Socialista (daí a sigla nazi) chegaram ao poder na Alemanha em 1933. Poucos meses depois, começaram as perseguições aos judeus e opositores (comunistas e social-democratas, entre outros). Em 15 de setembro de 1935, o regime promulgou as Leis de Nuremberg, discriminando definitivamente os judeus. Nos três anos seguintes, a população judaica foi sistematicamente expulsa da vida econômica, social e cultural da Alemanha.
Em 1938, tendo como pretexto o assassinato de um diplomata alemão em Paris pelo jovem judeu Herschel Grynszpan, os nazistas detonaram, entre 9 e 11 de novembro, um grande pogrom (perseguição) que ficou conhecido como a Noite dos Cristais (Kristallnacht), em referência às incontáveis vidraças e janelas destruídas pelas tropas de choque. Inúmeras sinagogas, casas e lojas foram incendiadas, mais de cem judeus mortos, milhares feridos e quase 30 mil enviados aos campos de concentração de Dachau, Buchenwald e Sachsenhausen.
Com o início da guerra, em 1939, e o ataque alemão à Polônia – onde viviam cerca de quatro milhões de judeus – a repressão se tornou ainda mais intensa. Nas áreas ocupadas, tornou-se obrigatório usar uma estrela de David presa às roupas como identificação. As deportações em massa e os trabalhos forçados tornaram-se regra.
A Conferência de Wannsee, que reuniu dignitários nazistas em 1942, aprovou o plano conhecido como “solução final”, o aniquilamento dos judeus da Europa. Foram criados, na Polônia, os grandes campos de extermínio, como Auschwitz-Birkenau, Majdanek e Treblinka – este, o primeiro a utilizar câmaras de gás nas execuções.
Os massacres de judeus, dissidentes políticos, ciganos, homossexuais e deficientes continuaram até a chegada das tropas aliadas. Em julho de 1944, as forças da então União Soviética alcançaram Majdanek, perto de Lublin. Seis meses depois, atingiam Auschwitz. Em abril, tropas inglesas haviam libertado Bergen-Belsen, na Alemanha, e o exército norte-americano chegou a Dachau, perto de Munique.
Até 1946, cerca de 200 mil judeus sobreviventes foram agrupados nas zonas de ocupação norte-americana, britânica e soviética.
A Segunda Guerra terminou em meados de 1945. Hitler suicidou-se em Berlim. Em novembro do mesmo ano, a ação do Tribunal Militar Internacional de Nuremberg permitiu que o mundo conhecesse a verdade sobre o genocídio. Chegava ao fim o nazismo, página da história que deve ser conhecida, para jamais ser repetida.

Varsóvia: a resistência 
O Gueto de Varsóvia foi criado no final de 1940 e, nessa época, confinava quase 450 mil judeus. Em janeiro de 1943, o número havia-se reduzido a 37 mil, por conta das deportações para os campos de extermínio.
Era véspera de Pessach quando os nazistas resolveram acabar com o gueto e mandar todos seus habitantes para os campos de extermínio. Mas um grupo de jovens judeus socialistas e sionistas, com apoio de setores da resistência polonesa e sob a liderança de Mordechai Anilevich, desafiaram durante vários dias o poderoso exército nazista. Lutaram e resistiram bravamente, sob as piores condições. E o Levante do Gueto de Varsóvia ficou consagrado como um grande momento da luta de todos os oprimidos contra a tirania. Apesar de ter sido dominado pelos alemães, o levante foi uma das principais manifestações de luta armada contra os nazistas na Europa ocupada e incentivou a resistência judaica em outros lugares, como Vilna, Bialystok, Bedzin-Sosnowiec e Cracóvia.

Costumes e tradições 
O Iom Hashoá é lembrado pelos judeus de todo o mundo, mas as principais cerimônias acontecem em Israel. Às 10 horas do dia 27 de Nissan, o país pára por dois minutos. As sirenes de ataque aéreo soam, veículos param e as pessoas permanecem em silêncio. Durante o dia, estabelecimentos públicos são fechados, exceto os que promovem atividades especiais relacionadas ao Holocausto. As emissoras de rádio e TV do país transmitem programação especial, com canções e documentários sobre o episódio, e as escolas oferecem aos alunos atividades relacionadas à data. As bandeiras são hasteadas a meio-pau, em homenagem aos heróis e mártires. Acendem-se velas por todo o país, com o lema “lembrar e recordar – jamais esquecer”.
Outro ritual que marca a ocasião é a Marcha da Vida Mundial, na Polônia, idealizada por um sobrevivente em busca da preservação da memória do Holocausto. Surgiu em lembrança à marcha que os prisioneiros condenados à morte faziam entre Auschwitz e Birkenau. Participantes vindos de todo o mundo refazem o caminho de três quilômetros, percorrido por milhões de prisioneiros em direção à morte. Eles podem, então, se familiarizar melhor com a vida judaica do pré-guerra, visitando os antigos guetos e também campos de concentração e extermínio. Depois, o grupo parte para uma viagem de uma semana em Israel, onde acompanha as comemorações de Iom Haatzmaut, o Dia da Independência.

Orações
Izcor (em memória dos que morreram no Holocausto)
Possa Deus se lembrar das almas de todas as comunidades de Israel na Diáspora européia que foram sacrificadas no altar durante os anos do Holocausto. Seis milhões de homens e mulheres, crianças, jovens e velhos que foram cruelmente assassinados em massa, em suas moradias, em suas cidades, nas florestas e aldeias.
As vítimas foram levadas, como ovelhas para a matança, para campos de concentração onde morreram assassinadas, queimadas nos terríveis fornos crematórios na Alemanha, Polônia e no resto dos países ocupados, nas mãos dos nazistas assassinos e seus aliados, que decidiram aniquilar, matar, e destruir totalmente o povo judeu, apagar da memória o judaísmo e os vestígios do nome de Israel.
Deus da vingança, juiz da Terra, lembre-se dos rios de sangue que foram derramados como água, do sangue de pais e filhos, mães e lactantes, dos rabinos e de seus alunos, e devolva aos opressores setenta vezes mais sofrimento do que eles nos infligiram.  
Não silencie o grito de “Shemá Israel” proferido por aqueles que foram levados à morte e permita que o lamento do aflito suba até o trono de sua glória.  Vingue, rapidamente em nossos dias, ante nossos olhos, o sangue dos puros e santifique filhos e filhas que nunca tiveram o privilégio de serem enterrados como judeus. Como está escrito: “Porque Ele vingará o sangue de seus servidores e sua vingança será aplicada aos seus opressores, e Ele perdoará a terra de seu povo”.

El Malê Rachamim (para os falecidos)  
Ó, Deus misericordioso, que habitas nas alturas, concede repouso perfeito – nas asas da Tua divina presença, na sublime moradia dos santos e puros, que brilham como o esplendor do firmamento – para as almas dos seis milhões de judeus, vítimas do Holocausto europeu.
Foram eles mortos, massacrados e queimados pelos alemães assassinos e seus aliados. Deram a vida em santificação do Teu nome. Rezamos pelo enaltecimento de suas almas. Possa o Mestre da Misericórdia abrigá-los sob Suas asas para sempre e vincular suas almas à corrente da vida eterna. Possa seu lugar de descanso ser o Jardim do Éden e possam eles alcançar o seu justo destino no fim dos tempos.

Iad Vashem – Museu do Holocausto 
O Instituto e Museu Iad Vashem é o maior centro de memória do Holocausto. Foi estabelecido em 1953 por uma lei do Knesset, o parlamento de Israel, com o objetivo de preservar a memória dos milhões de judeus assassinados. A instituição recorda também o heroísmo e a luta dos combatentes judeus, assim como as ações dos “Justos entre as Nações” (não-judeus que lutaram para salvar vidas judias).
Localizado no Har Hazicaron (Colina da Recordação, em hebraico), uma elevação na área ocidental de Jerusalém, o instituto inclui 55 milhões de páginas de documentos, aproximadamente 100 mil fotografias, filmes e testemunhos de sobreviventes gravados em vídeo, mais de 80 mil livros e milhares de revistas. Há, também, vários monumentos, um centro de pesquisa, e peças  pertencentes a vítimas do Holocausto.
No Iad Vashem funciona a Escola Internacional de Estudos do Holocausto, que realiza anualmente cursos para mais de 100 mil estudantes, 50 mil soldados e milhares de educadores.