Iom Ierushalaim

 

Controvérsias e celebrações no Dia de Jerusalém

por Ruben Sternschein, rabino da CIP

 

Por que, sendo Jerusalém tão central, o dia que a celebra acabou sendo tão menor e controvertido?

A resposta imediata é simples: o Dia de Jerusalém comemora a reunificação da cidade, realizada depois da Guerra dos Seis Dias, em junho de 1967. Em função da vitória, a cidade, outrora dividida na votação da ONU de novembro de 1947 que partilhava a terra de Israel deixando uma parte nas mãos do futuro estado judeu e outra nas mãos do futuro estado palestino, ficava inteiramente nas mãos do Estado de Israel. Os países árabes viram isso como uma invasão, bem como várias outras nações e a esquerda israelense.

É bem sabido que a partição do território proposta pela ONU foi aceita apenas pelos judeus, mesmo que para ambos os lados significasse uma renúncia e uma conquista.

Jerusalém não existia como cidade até ser construída pelo rei David há aproximadamente três mil anos. Antes disso, na Bíblia aparecem apenas alguns poucos eventos acontecidos naquele território sem dono e sem construção alguma. Justamente por essa razão de impersonalidade, de não identificação, David a escolhe para instalar lá seu palácio e a capital de seu reino. Desse modo, conseguiria unificar as doze tribos por cima de suas disputas nacionalistas.

Desde o começo, Jerusalém teria uma vocação de paz e plenitude, como indicaria seu nome em hebraico (ierushalaim), proveniente das palavras “ir” e “shalom”, “cidade da paz”; ou “ir” e “shalem”, “cidade da integridade”, da completitude (se bem que “shalem” também era o nome de um rei da época dos patriarcas que fez transações comercias e políticas na região).

Assim, David foi proibido de construir o Templo lá por ter sido um rei de guerras, e só seu filho Salomão foi quem o construiu após sua morte. O templo não poderia incluir metais usados para armas, justamente pela mesma vocação de paz.

Jerusalém foi assim criada pela dinastia do David e permaneceu capital do estado judeu por séculos. Até que foi destruída duas vezes em guerras invasivas de grandes potências: em 586 antes da era Cristã, pelos babilônios; e em 70 depois da era cristã, pelos romanos. Em ambos os casos, a maioria de seus habitantes foi massacrada e os poucos sobreviventes foram forçados a morar no exílio.

Esse exílio durou dois mil anos, mas nossos antepassados não abandonaram sua lealdade à cidade. Até hoje, todos os anos, sentamo-nos no chão no aniversário da destruição e jejuamos em sinal de luto. Ano a ano, encerramos os sedarim de Pessach, a festa da liberdade, com o desejo de voltarmos no ano seguinte para uma Jerusalém reconstruída, reconhecendo, assim, que não há liberdade total até podermos retornar a morar na cidade totalmente reconstruída. Em toda festa de casamento é recordada a pendência ao quebrarmos o copo e antes de desejarmos ‘mazal tov’. Toda casa judaica deixa um pedaço de parede sem acabar em sinal da pendência de reconstruir Jerusalém. Todos os dias, Jerusalém é recordada por três vezes nas rezas centrais e outras tantas em cada oração após as refeições.

No Islã, Jerusalém é a terceira cidade mais importante, depois de Meca e Medina. O cristianismo, por sua vez, mesmo reconhecendo lá algumas das passagens mais importantes da vida de Jesus, junto a Belém e à Galiléia, nunca reclamou uma soberania política sobre Jerusalém. Para o judaísmo não existe nenhuma outra cidade e nenhum outro lugar físico que se aproxime do significado de Jerusalém.

Entretanto, além das questões religiosas e ideológicas, existem questões práticas e políticas. Jerusalém, além de celestial, é terrena. É a capital de um país onde vivem pessoas. É a casa física deles, que precisa de uma organização tranquila, democrática e digna.

Nos séculos em que Jerusalém foi babilônica, romana, bizantina, otomana e jordano-palestina, quem não pertencia à religião majoritária não tinha direito nenhum de desenvolver em paz sua liberdade religiosa em seus lugares sagrados.

Igrejas viraram mesquitas, mesquitas viraram igrejas. Uns construíram em cima das memórias dos outros, tentando apagá-las. A Via Crucis tornou-se um mercado árabe, o Muro das Lamentações tornou-se um depósito de lixo.

Só em junho de 1967, quando Jerusalém antiga passou para as mãos do Estado de Israel, estabeleceu-se um status quo digno para todas as religiões, de modo que cada uma tivesse determinadas as soberanias sobre seus lugares sagrados e a polícia garantisse a segurança de todos.

O poeta Yehuda Amichay em seu poema Turistas disse: “Uma vez ouvi um guia indicando um arco romano assim: Vocês vêm esse homem com esses sacos de mercado? Em cima de sua cabeça conseguem ver uns restos de torres? Na última delas, um resto de teto? Esse é o arco, imaginem a arquitetura romana de dois mil anos atrás.” E completou: “Quando algum dia um guia perguntar se vocês vêm esse arco e essas torres romanas antigas, lembrem-se que isso não tem muita importância. O que importa é que por baixo delas um homem de verdade está levando comida para sua família. Nesse dia será compreendido qual é o significado terreno e a necessidade política de Jerusalém para nós em Israel.”

Infelizmente a cidade da paz não conheceu muita paz nos últimos 20 séculos. Entretanto, se aproximou dela algo mais nos últimos 46 anos, quando ela conseguiu que todas as espiritualidades com ela identificadas pudessem se expressar lá em paz, e que todas as populações vivessem lá vidas civis dignas. Acredito que isso sim é motivo de alegria e celebração.