Iom Hashoá

por rabino Michel Schlesinger

Lo rahu ish et achiv, velo kamu ish mitachtav. Não viram uns os outros, e não se levantou nenhum homem de seu lugar.

Poucas semanas atrás estávamos em volta da mesa de Pessach lembrando a história do Êxodo. O versículo que descreve a praga da escuridão que abateu os egípcios por três dias consecutivos abre margem para uma interpretação metafórica daquela situação. Os escravizadores tinham perdido toda a sua sensibilidade, estando completamente cegos para o sofrimentos dos israelitas. Não eram capazes de enxergar a humanidade do próximo ainda que esta estivesse a poucos centímetros de seus olhos.

Talvez tenha sido esta a praga da escuridão. Pode ser que não se tratou de ausência de luz, mas uma falta de empatia e consideração com a mazela alheia. Por isso a Torá descreve a situação desta forma: não viram uns os outros, ou seja, perderam a capacidade de se importar e não se levantou nenhum homem de seu lugar, aceitaram as determinações do Faraó com uma omissão covarde.

Três mil e quinhentos anos depois, a Europa nazi-fascista demonstrou não ter aprendido a lição. Os novos egípcios requintaram seus métodos de tortura e assassinato. O laboro escravo passou para os campos de trabalho. Não apenas os meninos recém-nascidos eram mortos, mas todos os que a loucura ariana considerasse inferiores.

Crianças brincando numa escadaria do gueto de Lodz. Lodz, Polônia, 1940. © Yad Vashem Photo Archive.

Diferentes pensadores se perguntaram como Deus permitiu que o Holocausto acontecesse? Como é possível acreditar em Deus depois de Auschwitz? Onde estava Deus um dos mais terríveis capítulos da História Humana?

Para o professor Richard Rubenstein a única resposta intelectualmente honesta para o Holocausto é a rejeição de Deus e o reconhecimento de que toda a existência é sem sentido. Para ele não existem plano ou proposta divinos e Deus não se importa com o mundo. Já Emil Fackenheim propõe que se olhe atentamente para o Holocausto e seencontre lá a nova revelação de Deus. Para este, rejeitar Deus por causa do Holocausto significa dar a vitória póstuma a Hitler.

O rabino Eliezer Berkovits defende que o livre arbítrio humano depende da capacidade de Deus de permanecer oculto. Se Deus intervém na História, anula a liberdade humana de fazer escolhas. O rabino Harold Kushner acredita que Deus não é Onipotente. Portanto, não existe contradição entre a existência de um Deus bom e a maldade de certos humanos. Na peça O Julgamento de Deus de Elie Wiesel, O Criador do Mundo é colocado no banco dos réus. A obra se baseia em eventos que Wiesel testemunhou durante sua adolescência em Auschwitz. No tribunal, vários argumentos são levantados contra Deus e aseu favor.

Questionar-se sobre o lugar de Deus no Holocausto é importante para toda e qualquer pessoa de fé. No entanto, acredito, existe um questionamento ainda mais difícil do que: onde estava Deus durante o Holocausto? A pergunta que devemos nos fazer repetidamente é: onde estava o homem? A Shoá não foi realizada por Deus, mas por pessoas. Pessoas incapazes de enxergar o outro mesmo quando a luz era abundante.

Lo rahu ish et achiv, velo kamu ish mitachtav. Não viram uns os outros, e não se levantou nenhum homem de seu lugar.

Somente quando buscamos a responsabilidade do homem nos tornamos senhores da História e desenvolvemos a possibilidade de educar as novas gerações para a moderação e a paz.