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Elu Ve-Elu, estas e estas são as palavras
Hoje em dia vivemos mergulhados na Era da Informação. Acreditamos que o mundo inteiro pode ser alcançado por um clique na velocidade estonteante de muitos megabytes por segundo. Somos bombardeados por palavras criadas, comentadas e discutidas instantaneamente o tempo inteiro.
Em meio a este turbilhão de informações, damos uma parada no Shabat e lemos na Torá: “Estas são as palavras ditas por Moshé a todo Israel.” Que interesse podem ter estas palavras, ditas há mais de 3 mil anos, para nós, judeus modernos e tão “informados”?
Já é difícil imaginar que, mesmo naquele tempo, todo um povo se dispusesse a parar para escutar Moshé proferir um discurso tão longo – praticamente todo o último livro da Torá − depois de 40 anos de peregrinação, quando a vontade provavelmente era chegar logo e montar acampamento na Terra Prometida. Imaginem vocês, ansiosos pelo jantar de Shabat, enquanto o rabino, em uma noite inspirada, em vez de falar por alguns minutos, decide estender seus comentários sobre a parashá por algumas horas. Agora imaginem que ele se entusiasmou e resolveu comentar toda a Torá, por um mês inteiro! Por outro lado, dá para entender que Moshé quisesse compartilhar com a nova geração todo o processo vivido pelas gerações anteriores. Para que entendessem que iriam receber por herança a experiência e a sabedoria acumulada desde os tempos dos patriarcas e matriarcas, que teriam por obrigação transmitir às gerações futuras. Moshé dirigiu suas palavras, portanto, a todo Israel, a cada um de nós, de todos os tempos.
De tudo o que poderia ter dito, Moshé escolheu dizer “estas palavras” em um discurso de memória, de recordações que saltavam com fluidez à língua antes pesada. Mas como seria se, em vez disso, alguns escribas tivessem anotado os fatos passados em pergaminho para serem lidos no momento apropriado por Moshé diante de todos? Foi assim que Ezra faria mais adiante com a própria Torá de Moshé, no retorno a Israel após o exílio na Babilônia, quando a trouxe para ser lida diante dos “homens e mulheres capacitados a compreender o que lhes fosse apresentado” (Neemias 8:2). Será que não teríamos assim uma Torá uniforme, uma única voz, uma única visão, uma única verdade? Pode ser. Mas não foi assim. Não era para ser assim. Uma Torá com uma voz única? Não é esta a Torá de Moshé.
A Torá de Moshé apresenta em diversos momentos várias versões para o mesmo fato. Por exemplo: na leitura desta semana Moshé conta que, incapaz de liderar o povo sozinho, teve a ideia ele mesmo de delegar ao povo a escolha de “homens sábios, inteligentes e conhecidos de suas tribos”, consultou as pessoas para saber se esta era a melhor decisão e só a levou adiante após aprovação popular; mas no livro do Êxodo a sugestão de delegar poder foi dada a ele por Itró, seu sogro! Mais impressionante ainda: aqui Moshé nos conta que, antes de chegarem a Israel, o povo pediu para que antes fossem enviados olheiros a fim de conhecerem a terra, o idioma, os caminhos e cidades que encontrariam pela frente. No entanto, lemos no livro de Números que foi Deus quem ordenou o envio de olheiros. Afinal, qual dos textos está certo? E se um deles for o certo, significa que o outro está errado? Há textos errados na Torá?
Em ambos os casos, Moshé, em seu longo discurso que começamos a ler nesta semana, atribui ao próprio povo – não a Itró, nem mesmo a Deus − as decisões sobre o seu próprio destino. Em outras palavras: Moshé rejeita a autoridade única, a verdade única, e delega a cada pessoa, a cada um de nós, a autoridade sobre como nos conduzirmos em Israel.
Conta-nos o Talmud que certa vez os discípulos de Shamai e Hilel divergiram por três anos sobre quais palavras ditavam a lei. Uns diziam que eram as palavras de Hilel, mas os outros diziam que eram as de Shamai. Foi quando a voz de Deus se manifestou e afirmou: “Estas e estas são palavras do Deus vivente”. Estas são as palavras que Moshé falou a todo Israel.
Shabat shalom
Uri Lam, de Jerusalém
*A parashá da semana é acompanhada por uma ilustração da aquarelista Rosália Lerner.
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