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Corach

O judaísmo é pluralista ou não?

 

À primeira vista, a parashá desta semana indica que não: um homem chamado Córach se opõe à autoridade de Moshé e é engolido pela terra como castigo divino. Não apenas ele, mas todos os que o apoiaram, umas 250 pessoas. Também na parashá da semana passada, dez dos doze enviados para espiar a Terra de Israel antes da chegada dos libertados do Egito são mortos por terem se desanimado com o projeto de serem livres, ou seja, porque se opuseram ao projeto oficial de Deus e de Moshé.

 

Por outro lado, duas parashiot atrás indicam exatamente o contrário. A autoridade profética de Moshé é dividida com mais 70 pessoas e duas delas continuam profetizando inclusive depois do término da missão, e daí por toda a vida deles. Um dos seguidores mais fiéis de Moshé propõe destruí-los por pretenderem fazer concorrência e o próprio Moshé o impede com a famosa frase: tomara que todos sejam profetas e que Deus possa se dirigir a todos diretamente. O próprio Moshé expressa a maior das aberturas possíveis: o fim de sua autoridade! Que ele mesmo não seja mais necessário como líder e que todos igualmente sejam seus próprios profetas, cada um com seu jeito pessoal, ou seja, o maior pluralismo possível.

 

Mais tarde, na época da Mishná e do Talmud os sábios estabeleceram o debate, a discussão como caminho e até às vezes como um fim, como valor. Muitas vezes as discussões talmúdicas acabam abertas e até são suspeitas de não quererem procurar uma solução única para todas as partes envolvidas. Contam que, uma vez, quando as escolas de Hilel e Shamai se debatiam sobre a aplicação de uma lei e não chegavam a um acordo, saiu uma voz do céu e gritou: Elu veelu divrê Elohim chaim, “tanto essas como essas são as palavras do Deus vivente”. Ambas. Mesmo que sejam diferentes e até contraditórias. Porque a realidade e a verdade são complexas e só com a diversidade de enfoques é que podemos aspirar atingir a verdade. Mais ainda: a própria divindade é complexa, e em vários aspectos precisa da diversidade humana para preservar sua vitalidade. Uma resolução única mataria essa vitalidade da verdade divina.

 

Também é verdade que o judaísmo é totalmente pluralista com respeito a outras religiões e culturas. Embora nem sempre contemos com tolerância e pluralidade entre os próprios judeus, nunca os judeus exigiram nada de outras tradições. Nunca tentaram convencer, converter nem muito menos perseguir ou forçar. O judaísmo sempre se viu como um caminho particular que não precisa ser adotado por todos os demais e, portanto, pode conviver com outros caminhos. Maimônides, aceito como autoridade por todas as linhas religiosas de todos os tempos, acreditava que Aristóteles, o filósofo grego e pagão, não precisava das mitsvot para chegar às verdades da razão e da ética nem para nenhum outro bom objetivo humano.

 

Como explicar, então, o começo da parashá da semana e desta nota, tão contrário a todo pluralismo?

 

Os sábios da Mishná e do Talmud se perguntaram o mesmo e estabeleceram que o que aconteceu com Córach não pôde ter sido um problema de pluralidade. Segundo eles, uma vez que o próprio Moshé pregou por mais profetas e o próprio Deus os nomeou, é inadmissível e inacreditável semelhante castigo apenas por uma concorrência pequena ou por uma oposição.

 

E então, o que aconteceu realmente?

 

Córach apenas queria poder. E não o queria para melhorar as coisas, não tinha um programa melhor, nem idéias melhores ou valores melhores. Nem alternativos. Só queria tirar Moshé do seu cargo e criar o caos, ou ficar ele no topo, apenas pelo prestígio. Essa é uma atitude destrutiva, uma discórdia de morte, e por isso, dizem os sábios, foi apagada.

 

Não sabemos exatamente o que aconteceu nem quais foram as intenções de Córach. Mas a explicação dos sábios, e o mero fato de precisarem explicar e desculpar o texto da Torá, garantem a consistência da pluralidade essencial de nossa tradição.

 

Shabat shalom,

Rabino Ruben Sternschein


 


*A parashá da semana é acompanhada por uma ilustração da aquarelista Rosália Lerner.


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