O desafio da proximidade
Milan Kundera, o escritor checo, disse que as pessoas podem ser classificadas em quatro grupos, conforme diante de quem elas se veem agindo:
1) aquelas cujos espectadores são multidões anônimas: o mundo, a sociedade, o público de um teatro, etc.
2) aquelas para as quais os espectadores são muitos olhos conhecidos: sua família, seus amigos, seus colegas, seus concorrentes, seus inimigos, seus chefes, seus subordinados.
3) aqueles que se veem olhados e assistidos pelos olhos de uma única pessoa muito próxima, geralmente amada.
4) aqueles que se veem olhados por olhos ausentes, talvez imaginários, de pessoas que faleceram, que já não têm contato com elas, que mal conheceram mas imaginam o que pensariam deles em tal o qual situação.
Podemos concordar ou preferir combinar as categorias, por exemplo: a segunda com a terceira, argumentando que no final de contas ambas se refletem nos próximos conhecidos; a terceira com a quarta pela especificidade; a primeira com a segunda pela multidão. Podemos acrescentar categorias e dizer que existem pessoas que se veem observados principalmente por si mesmos, por Deus, por textos, por valores, por emoções, por aspirações, por frustrações, por objetivos, pelo futuro, pelo passado, pelos filhos, pelos pais, pelos amores e desamores e por outros relacionamentos.
Todavia, uma das perguntas mais fortes que surgem de sua proposta é: qual é o efeito da proximidade? Serve ela para criar padrões altos ou baixos? Quando nos sentimos olhados pelos mais próximos, sentimo-nos mais exigidos ou menos do que pelos mais distantes? Quando nos sentimos avaliados por mais pessoas, exigimo-nos uma ética maior ou menor? Quando julgamos nossos queridos, somos mais severos ou mais tolerantes? Quando julgamos a nós mesmos, somos mais rígidos ou mais flexíveis?
Na parashá da semana acontece algo trágico: Deus castiga os filhos de Aharon, irmão de Moshé, com a morte. Moshé comenta que Deus disse “através de meus mais próximos me santificarei”. Aharon responde com uma manifestação ativa de silêncio. Os comentários de séculos a respeito são variados, mas podem se dividir em dois tipos: os que acreditam que Moshé consegue consolar Aharon e os que não. Os últimos argumentam que ele ficou revoltado com a intransigência divina, pela impossibilidade de compreender, pelo fato de que levará essa tristeza, irreparável e incompreensível, até seus últimos dias. Os primeiros acreditam que Moshé consegue consolar Aharon ao sugerir que seus filhos eram dos mais próximos de Deus e por isso foram mais exigidos do que qualquer um.
Não sabemos o que aconteceu nesse duro momento, nem qual foi a intenção de Moshé, tampouco a interpretação de Aharon. Menos ainda podemos explicar a atitude divina no relato. Mas ficam conosco as perguntas iniciais, agora iluminadas pelo texto bíblico: quem nos olha? A quem olhamos e qual é o efeito que isso produz em nosso padrões de conduta? Perdoamos mais aos mais próximos? Diante do mesmo ato, nas mesmas circunstâncias (se existissem) julgaríamos diferente o filho, o cônjuge, o concorrente, o inimigo ou o anônimo? Ou consideramos que um mesmo roubo deve ser avaliado objetivamente para que a avaliação seja realmente ética? Como somos com nossos próximos e com nossos distantes, melhores ou piores? Comportamo-nos melhor em casa ou em público?
Alguns acreditam que o verdadeiro significado da mezuzá é trazer os melhores padrões ao lugar mais fraco: para aqueles que são melhores com os de fora − os anônimos ou distantes ou multidões − que ao entrarem em suas casas copiem o padrão que usam fora e o apliquem dentro com seus próximos. Para aqueles que apenas defendem os próximos, perdoam e se tornam mais flexíveis com os de dentro, a mezuzá os desafia a levar essa sensibilidade para fora. Os que aplicam a ética apenas com os demais, ao verem a mezuzá são convocados a exigi-la também com os deles próprios.
Que saibamos ser os melhores olhos dos demais e escolhermos como nosso público aqueles olhos que tirem sempre o melhor de nós.
Shabat shalom,
Rabino Ruben Sternschein
*A parashá da semana é acompanhada por uma ilustração da aquarelista Rosália Lerner.