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Sobre a linha da CIP - O valor e o perigo dos símbolos religiosos

O que é mais autenticamente judaico: comer a matsá ou incorporar seu significado? Fazer o seder de Pessach ou sensibilizar-se pelo que este evoca e pelo que prega? Comer a chalá de Shabat, acender as velas e dizer o kidush, ou inspirar-se no que implicam para transformar nossas vidas?
Esta é a principal discussão que diferencia entre as diversas correntes do judaísmo contemporâneo. Alguns argumentam que as mitsvot são fins em si próprios, saibamos ou não seu significado. O mais importante para eles é fazê-las, cumpri-las ao pé da letra. Deus saberá por que. Os mundos ocultos terão sua explicação, ou talvez simplesmente foram dadas para provar nossa submissão à vontade divina. Outros dizem: a maioria das mitsvot rituais mencionadas são apenas símbolos. Através delas expressamos valores, prestamos atenção a questões profundas da humanidade, da sociedade, da personalidade, e nos preparamos para o melhor. Existem outros com um vínculo mais leve, que enxergam nas mitsvot apenas tradições. Através delas principalmente fazemos contato com nosso passado, criamos uma ponte entre nossos filhos e nossos avós. A ponte pode ser uma comida, uma canção, uma vela.
A linha da CIP, observada claramente ao longo das décadas e até hoje em cada atividade, texto, palestra ou reza, é uma integração respeitosa, entusiasta e responsável das três tendências. Na CIP se estudam os conteúdos das tradições porque acreditamos que o judaísmo não é mágico para que façamos rituais que se explicam apenas em outras esferas. Estudam-se os motivos que se escondem nas práticas e os valores que desenvolvem, com muita ênfase, porque acreditamos que o judaísmo é contrário a deixar o homem numa atitude de autômato que apenas pratica ritos, mesmo que sejam gostosos, simpáticos, emocionantes ou de peso histórico. O povo do livro e o livro desse povo, acreditaram com certeza nossos fundadores, são muito mais profundos e inteligentes do que as formas das práticas rituais. A prática sem consciência até pode ser perigosa, porque a o praticante poderia crer que o símbolo é suficiente e não é necessário realizar o bem representado por ele. Por outro lado, na CIP, fizeram e fazemos questão de preservar essas práticas, com respeito, com carinho, com entusiasmo. Porque acreditamos que são uma maravilhosa e divina ponte entre gerações. Através da matsá, podemos conversar com nossos filhos e netos sobre os significados e desafios da liberdade em gerações diversas e em contextos históricos, políticos e culturais diferentes. Através do seder de Pessach, nosso discurso adquire a potência e o apoio de séculos de judaísmo e de milhares de judeus que celebraram e lutaram por diversas liberdades. Através da chalá, das velas e do vinho de Shabat, nos unimos a centenas de judeus do mundo e a milhares de judeus que nos precederam para incorporar os valores de harmonia com a natureza, entre classes sociais e entre as diferenças geracionais de pais e filhos.
A parashá da semana apresenta uma dificuldade ou um grande desafio a respeito desta discussão. Trata sobre a tradição das oferendas animais e vegetais que se faziam no Templo. Como sabemos, essas oferendas foram substituídas por rezas. Animais não são mais mortos, vegetais não são mais queimados. O ser humano é convocado a falar, cantar e meditar seus desejos, suas fraquezas, seus perdões, suas alegrias e suas gratidões. O que fazer então com essa tradição, que a própria tradição já mudou há dois mil anos?!
Maimônides ou Rambam, uma das máximas autoridades rabínicas e filosóficas da história judaica, aceitou como tal por todas as correntes. Ele escreveu a respeito que as corbanot, ou oferendas do Templo, eram apenas um símbolo temporal como muitos outros. Sua função principal era mover, transformar e transformar-se até desaparecer! Nasceram para lutar contra os sacrifícios de seres humanos praticados pelos povos primitivos. Surgiram para regulamentar que apenas podiam ser sacrificados animais, não mais pessoas; e só alguns animais, e só em ocasiões determinadas, e só matados sem dor. O passo seguinte, segundo Maimônides, era deliberadamente acabar com todas as oferendas e estabelecer a reza falada em forma comunitária como única opção. E o passo por vir no futuro, escreveu Maimônides, será a reza meditada espontaneamente, na mente e no coração.
Maimônides escreveu tudo isto muito antes do nascimento do judaísmo ortodoxo e do judaísmo liberal. No século 12. Cabe perguntar-se se já atingimos sua visão no século 21.
Shabat shalom
Rabino Ruben Sternschein
*A parashá da semana é acompanhada por uma ilustração da aquarelista Rosália Lerner.
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