Chaiê Sara

“A vida de Sara foi de 127 anos. Tendo Sara falecido em Kiriát Arbá, em Chevrón, veio Avrahám fazer-lhe um hespêd e chorar pela sua morte” (Gn 23:1-2).

 

O hespêd é o discurso elogioso em memória de um ente querido, realizado ainda durante o velório. Trata-se de uma mitsvá falar daquele que se foi, recordando suas características positivas a fim de perpetuá-las. Trata-se de uma mitsvá incentivar que aqueles que aqui ficam levem essas memórias a diante.

 

Esta parashá é o primeiro texto judaico a lidar com este costume. Também aparece aqui a tradição de se adquirir um local definitivo para o sepultamento. Avrahám insiste em comprar o terreno da gruta de Machpelá, mesmo que já lhe tivessem oferecido o terreno gratuitamente.

 

Há muitos séculos, onde quer que o povo judeu se estabelecesse em comunidade, buscava-se criar uma sociedade sagrada (chevrá cadisha) para se ocupar dos ritos inerentes à perda daqueles que amamos.

 

Assim, sempre foi comum que novas comunidades e sinagogas criassem novas chevrót, encarregadas de perpetuar os ritos específicos dos antepassados e de suas regiões. Em Nova Iorque há mais de 40 chevrót diferentes utilizando o mesmo campo santo, porém perpetuando ritos alemães, lituanos, poloneses, italianos, médio-orientais, hispano-portugueses, entre outros.

 

Mas não se trata unicamente de perpetuar a ritualística. Trata-se da última expressão comunitária, quando o derradeiro ofício religioso será conduzido por chazaním da mesma comunidade, com seu canto específico e familiar.

 

Essa prática também propicia que um rabino próximo à família faça o hespêd, o último discurso a respeito daquele que se foi. É fundamental que aqueles que ficam sejam consolados de sua perda por pessoas próximas e conhecidas. Isso também fortalece o senso de comunidade.

 

Há quase 80 anos, judeus alemães recém-chegados nesta cidade também fundaram sua própria sociedade sagrada, a Chevra Kadisha da CIP. Embora já existisse um cemitério judaico em São Paulo e uma chevrá cadisha fundada anos antes, os rituais eram diferentes dos alemães. Além disso, muitos dos congregantes da CIP àquela altura somente falavam alemão, idioma com o qual seriam confortados de sua perda pelo rabino Pinkuss.

 

A Chevra Kadisha da CIP continua até nossos dias, atendendo nossos associados e frequentadores, além da comunidade judaica em geral. Não se trata unicamente da preservação da ritualística alemã, mas sim de completar comunitariamente o elo do grande ciclo da vida, iniciado lá atrás, no Brit Milá ou no Simchát Bat.

 

Que a memória de nossos entes queridos nos traga paz e bênçãos, e que a vida vivida por eles seja sempre fonte de luz e inspiração para toda nossa comunidade, para toda nossa CIP, como foi a vida de Sara.

 

Shabat Shalom.

Moré Theo Hotz