Chaiê Sara

Uma piada conhecida conta que uma pessoa subiu ao céu e reclamou:

− Deus, por que nunca me permitiu ganhar a loteria?

E Deus respondeu:

− Você nunca comprou um bilhete.

 

O famoso ditado “Ajuda-te para que Deus possa te ajudar” comprova-se justamente na parashá desta semana. Eliezer, servo de Avraham deve achar uma esposa para Itzhak. Embora estivesse pedindo pela ajuda de Deus, tudo que acontece é exatamente o que ele mesmo planeja. Eliezer estabelece um sinal para identificar a vontade divina: a primeira moça que aparecesse no poço e oferecesse água para ele e para seu gado seria a destinada a Itzhak.

 

Inevitavelmente surge a pergunta: de quem é a ação aqui? Será que podemos amarrar Deus? Se sim, que tipo de Deus é esse? Se não, como entender esse episódio? Qual o lugar de Deus nele, uma vez que Ele nem respondeu se aceitava ou não o trato? Qual a função de um Deus a quem atribuímos o que aparentemente nós mesmos fazemos?

 

Rabi Akiva estabeleceu o princípio teológico “lu iedaativ haitiv”, ou “se conhecesse perfeitamente Deus, seria o Ele”. Toda teologia está condenada, por definição, a ser especulativa, uma aposta, uma esperança, sempre incerta. A fé não é conhecimento seguro. Por isso é um ato de coragem. Diferentemente da acusação do filósofo Nietzche, que disse que a fé seria produto da covardia de não se atrever a assumir que não há nada fora de nós mesmos. A fé consiste em aceitar o mistério. Com coragem. E abraçá-lo.

 

Nesse trecho, Eliezer, como nós, não sabe qual é o lugar de Deus. Pede e não obtém uma resposta objetiva. Age segundo seus princípios, sua ética, sua intuição. E espera que seja Deus quem esteja por trás dos resultados obtidos.

 

Arrisca, pula, abraça e caminha. Sem garantias. Com a coragem da fé que aceita o mistério. Se a divindade fosse certeza, se pudesse ser amarrada, se agisse claramente por nós, nossa existência não teria sentido. Se não houvesse mais nada do que apenas nós mesmos, poderíamos nos sentir muito poderosos, mas com um mundo e uma perspectiva muito pequenos. Se tivéssemos garantias absolutas da existência divina e de seu funcionamento ou de sua ausência, não poderíamos experimentar a paixão de uma vida que pula, arrisca e se entrega.

 

Shabat shalom

Rabino Ruben Sternschein