Chaiê Sara

O amor cresce ou diminui com o tempo? E a paixão? Normalmente, costumamos ouvir que o que acontece no começo, o “flash”, o “choque elétrico”, é paixão, e o que vem depois, ou o que fica depois, é amor. No entanto, existem casos em que o oposto acontece. Neles, no começo, não há nada, e só depois de as duas pessoas se conhecerem bem é que começam os sentimentos, tímidos primeiro, e mais fortes e comprometidos depois. Carinho que se torna amor e que cria momentos de paixão.

 

Existem teorias diferentes.  Algumas com tons moralistas, como se a paixão fosse ruim, superficial e passageira, enquanto o amor seria sublime e duradouro por definição. Segundo essas teorias, “se durou pouco é porque não foi amor”. Entretanto, quem experimentou dentro de sua alma, mesmo sem conhecer teorias nem especialistas em definições, SABE muito bem que sentiu, sim, amor, mesmo que por alguns instantes, e sabe que experimentou paixões que duraram muito tempo, talvez a vida toda. Alguns até dirão que a vida durou enquanto uma paixão durou.

 

A Torá apresenta uma amplitude maravilhosa a esse respeito. Especialmente nesta parashá. Isaac encontra Rivca ao sair ao campo para conversar. No midrash talmúdico, os sábios interpretaram que se tratava de uma busca por Deus, que ele saiu para conversar com si próprio. Para rezar. Nesse caminho achou Rivca. Só que a achou simplesmente porque a viu por um instante, não mais. Seria amor? Paixão? Impulso? Algo bom? Ou ruim? Rivca, por sua vez, caiu do camelo ao ver Isaac. Pouco depois ele a levou à tenda onde morava sua falecida mãe, a tomou por esposa e a amou. Segundo o midrash, ele primeiro casou e só depois a amou. No decorrer do tempo, a conheceu. Aprendeu a amá-la? Foi se encantando?

 

Este não é o único exemplo encontrado na Torá. Na mesma parashá, Avraham, que havia tido duas mulheres, casa-se de novo. Uma delas, agora falecida, havia sido a esposa oficial, primeira dama e companheira de todos os empreendimentos. A outra foi a concubina, serva da esposa, cuja missão teoricamente era apenas lhe dar filhos. Esta já tinha sido expulsa pela primeira esposa anos atrás. Não obstante, o midrash insiste em dizer que esta nova esposa era, na verdade, a antiga concubina. Avraham fora apaixonado por ela e ela por ele, (por todos esses anos!) e somente agora as condições permitiam o relacionamento de amor e cumplicidade. Alguns analistas do midrash dizem que esta teoria não tenta falar de alguma infidelidade no coração de Avraham. Pelo contrário: tenta dizer que Avraham amou a ambas e, por isso, foi integro no seu relacionamento com cada uma. Recusou-se a ver na concubina um objeto reprodutor e, por isso, teve paixão e amor. Ambos duradouros.

 

Por fim, na história de Iaakov e Léa aparecerá o amor imediato por Rachel e a paixão aprendida lentamente por Léa, segundo alguns interpretadores.

Desta vez, o velho texto, ou o velho testamento, quebra os paradigmas mais atuais e liberais da forma mais revolucionária e nos desafia a repensar com criatividade nossos convencionalismos.

 

Shabat Shalom.

Rabino Ruben Sternschein