Sheminí

O nome do trecho da Torá lido nesta semana refere-se ao oitavo (sheminí) dia depois dos sete dias de ordenação dos sacerdotes Aaron, irmão de Moisés, e seus filhos, Nadav e Avihu. A parashá começa relatando que os filhos de Aaron foram castigados com a morte por realizarem uma oferenda a Deus de forma incorreta.
 
Em seguida, o trecho segue descrevendo as leis de cashrut e classifica os animais em diferentes grupos com suas respectivas regras. Qual a importância da alimentação casher? Qual o motivo que faz um ser humano renunciar da liberdade de comer tudo o que lhe apetece e selecionar os alimentos a serem consumidos?
 
Para essas perguntas existem diversas respostas. Uma maneira simples de lidar com a questão é dizer que as regras da cashrut foram ditadas por Deus e por isso precisam ser cumpridas. Uma outra maneira é buscar a santidade no ato de comer.
 
Assim como selecionamos os livros que leremos ou os programas da televisão que iremos assistir, da mesma forma aquilo que será colocado em nossa boca passará também por uma filtragem. A capacidade de fazer escolhas e controlar nossos instintos nos difere dos demais animais e, alguns acreditam, é uma obrigação do homem.
 
Um conjunto de regras que determina quais alimentos são permitidos e em quais circunstâncias faz com que o ato de se alimentar deixe de ser mecânico e impulsivo e passe a ter santidade (kedushá). Ao selecionar aquilo que como, reconheço que os alimentos vêm de Deus. Percebo que aquele animal que teve sua vida interrompida para servir de alimento para mim, ou mesmo aquela fruta que foi tirada da árvore, têm santidade enquanto parte da criação divina.
 
Existem algumas regras da cashrut que podem ser explicadas mais facilmente, como o abate do animal com o mínimo de sofrimento possível. Outras regras parecem não seguir nenhuma lógica aparente, como a proibição de ingerir alguns peixes, a não ser a necessidade de separar os alimentos entre permitidos e proibidos. Diversos rabinos acreditam que não existe nada intrinsicamente impuro em comer, por exemplo, porcos ou camelos, a não ser o fato da Torá os terem proibido aos israelitas.
 
Cada família judia deve buscar o seu caminho de lidar com a cashrut e diversas alternativas podem ser encontradas. Existem aqueles que mantêm uma casa casher mas comem de tudo quando estão fora dela. Outros renunciaram a porcos e frutos do mar, mas se alimentam de todo o resto. Alguns não misturam carne com leite. Há pessoas que se preocupam para que a comida do Shabat seja casher. E assim por diante.
 
Na minha opinião, todo judeu precisa conhecer as leis alimentares judaicas e decidir de que maneira pretende relacionar-se com essas normas. Toda resposta é legítima desde que seja fruto de estudo e reflexão. Mais importante do que as decisões tomadas é o constante debate com a própria identidade judaica.
 
 

Shabat Shalom.
Rabino Michel Schlesinger