Ki Tissá

Inúmeras professoras experimentam uma mudança importante ao se tornarem mães: quando jovens, muitas vezes não conseguem entender a condescendência das mães de seus alunos ao perdoá-los e fazer a vista grossa ao invés de colocar limites e mantê-los com coerência e firmeza. Ao se tornarem mães, também elas se percebem mais leves, mais flexíveis, mais humanas.

 

Outras experimentam uma mudança oposta. Quando jovens se sentem inseguras e com medo de perder o carinho dos alunos ao estabelecer regras, e, após exercer a maternidade e a educação constante, no dia a dia, acabam ganhando confiança para sustentar limites.

 

A proximidade nos torna mais maleáveis ou mais fortes? Seria a realidade material ou a abstração ideal que nos aproxima da maior autenticidade e integridade a respeito de princípios e valores?

 

Na parashá Ki Tissá acontece a primeira grande transgressão dos libertos: durante a espera pela descida de Moisés, pelo encontro com o divino no Monte Sinai, o povo se desespera e cria um bezerro de ouro para adorar e servir. A historia é conhecida: Moisés desce e, ao vê-lo, destrói as tábuas e também o bezerro.

 

Existem, porém, alguns detalhes menos famosos, embora não menos importantes, desta narrativa.

 

Na entrega dos Dez Mandamentos, durante o encontro entre Moisés e Deus, este se apresentou como aquele que os tirou da escravidão, mas também como um Deus ciumento, que tarda na ira, mas é capaz de cobrar pelos erros até a quarta geração. Que está disposto à compaixão e ao amor para milhares de gerações, mas somente àqueles que seguirem Seus caminhos.

 

Esse mesmo Deus diz, ainda lá em cima, que o povo se corrompeu e que o destruirá. Moises é quem pede misericórdia e perdão. Porém, ao descer, é ele que destrói tudo, enquanto Deus, quando reaparece, volta para reconstruir: manda fazer novas tábuas e se apresenta com os famosos atributos que, embora lembrem a descrição dos Dez Mandamentos, agora inibem a parte rígida, apagam o atributo ciumento e enfatizam o perdão e o amor incondicionais. De perto, na hora de avaliar princípios e aplicar regras, Deus parece menos severo do que na abstração pronunciada acima do Monte.

 

Toda teologia se reconhece como antropologia de algum modo. Todos os deuses representam e expressam principalmente ideais, pendências e reclamações de seus mentores. Inclusive e especialmente os deuses dos ateísmos. Também eles dizem bastante a respeito dos ateus.

 

O Deus da parashá se debate entre a proximidade e a transcendência, entre a demanda pela perfeição e o perdão diante da realidade possível. Para os místicos, tudo é divindade, o mal também, e por isso a existência é tensa, uma constante luta interna. Para os talmudistas, Deus luta e até reza para ter mais bondade que justiça, mais perdão que exigência.

 

Fica conosco nesta semana a pergunta sobre nosso conceito da divindade, cientes de que, na verdade, ela esconde a pergunta sobre nosso conceito de nós mesmos.

 

Shabat shalom.

Rabino Ruben Sternschein

 
 

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